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Sapo parteiro macho com os ovos no dorso, por Christian Fischer *

A divisão de tarefas parentais entre homens e mulheres é frequentemente alvo de discussões acesas na nossa sociedade. Embora a ciência possa ter algumas coisas a dizer sobre o assunto, que ficarão para uma publicação futura, nos humanos este assunto cabe sobretudo num âmbito mais sociocultural, mais pessoal e do relacionamento de cada casal.

Posto isto, gostaríamos aqui de ilustrar como no reino animal essa divisão das tarefas parentais entre progenitores pode adquirir tantas facetas diversificadas e até surpreendentes.

Por necessidade biológica e até pela própria definição do sexo feminino, cabe sempre às fêmeas um papel essencial na fase inicial da reprodução das espécies com fecundação interna, em que se incluem todos os mamíferos, as aves e os répteis, muitos anfíbios e peixes, e até diversos tipos de invertebrados. São elas que albergam o ovo depois da fecundação. Contudo, passada essa fase, a regra no reino animal é não haver regra sobre as tarefas parentais.

As aves são um bom exemplo desta diversidade. Essencialmente podemos dividir as aves em dois grandes grupos em termos reprodutivos: aves com dimorfismo sexual claro, isto é, em que macho e fêmeas são claramente diferentes em termos morfológicos; e aves monomórficas, em que os dois sexos são parecidos.

As espécies monomórficas tendem a dividir as tarefas parentais de forma equilibrada – ambos os sexos ajudam a construir o ninho, a incubar os ovos e a alimentar a prole. Cabem neste grupo os exemplos clássicos de aves que formam casais para a vida, como os albatrozes, os cisnes ou as rolas. Quando existe um dimorfismo sexual, esse geralmente reflecte diferenças nas pressões selectivas que influenciam a evolução de cada sexo. Na maioria destes casos, os machos são maiores e mais coloridos, lutam activamente com outros machos para garantir os melhores territórios e têm um papel menos activo nos cuidados parentais. Cabe às fêmeas escolher os melhores machos, que geralmente são os que têm melhores territórios, e muitas vezes ficam depois sozinhas a cuidar da prole. São exemplos deste grupo: os pavões, alguns patos e muitas aves canoras1.

Mas dentro deste padrão geral cabem muitos exemplos surpreendentes. Por exemplo, o combatente, uma pequena ave aquática que se reproduz na Sibéria e passa o inverno em África, tem três tipos de machos, nenhum dos quais tem qualquer papel nos cuidados parentais. Os machos maiores e mais coloridos são territoriais e formam haréns com diversas fêmeas. Os machos satélite, também coloridos mas não territoriais, rondam os haréns e tentam copular com as fêmeas quando os machos dominantes não estão atentos. Finalmente, os machos furtivos são muito semelhantes às fêmeas e tentam assim enganar os machos maiores para aceder às fêmeas. Qualquer destes tipos de macho abandona a área de reprodução antes mesmo das fêmeas porem os ovos, deixando-lhes a cargo todas as tarefas de incubação e protecção da prole2.

Em espécies como os falaropos e as jacanas, as fêmeas desequilibraram totalmente o campo no sentido oposto. Aqui são as fêmeas que são maiores e mais coloridas. São elas que lutam pelos melhores territórios e que formam haréns de machos que cuidam sozinhos dos ovos e das crias desde o momento da postura3. O tipo de reprodução em que as fêmeas se reproduzem com diversos machos é denominado poliandria e é também comum em muitas espécies de mamíferos, desde marsupiais a musaranhos, roedores, coelhos, felinos, canídeos, ursos, focas, golfinhos, cavalos e humanos. Pensa-se que a poliandria evoluiu como uma forma de minimizar o risco de infanticídio por parte dos machos, que é uma causa frequente de mortalidade infantil em muitas espécies, por exemplo como forma de eliminar as crias de outros macho que iriam competir com as próprias crias ou de forçar a entrada das fêmeas no estro4.

 A poliandria não implica que os cuidados parentais fiquem entregues aos machos, como no caso dos falaropos, e de facto não existem casos semelhantes entre os mamíferos, grupo em que as fêmeas têm sempre um papel importante nos cuidados parentais. Contudo, os exemplos de papás que fazem o papel de mamãs não são assim tão incomuns no reino animal. Os cavalos-marinhos machos recebem os ovos das fêmeas e depois incubam-nos numa prega no seu abdómen, indo até ao ponto de lhes fornecer prolactina, a mesma hormona responsável pela produção do leite nos mamíferos5. Também em algumas espécies de tilápias são exclusivamente os machos que guardam as crias dentro da boca para evitar os predadores. Outro exemplo paradigmático vem do grupo dos anfíbios, em que o sapo-parteiro macho recebe os ovos fertilizados da fêmea e carrega-os no dorso até eclodirem3.

Parece evidente que nada na natureza força uma interpretação rígida do papel que os machos ou as fêmeas devem ter nos cuidados a prestar às suas crias. A evolução do reino animal coloriu o planeta de um sem fim de cores, formas e comportamentos capazes de garantir o objectivo último de cada ser vivo: assegurar a sobrevivência da sua descendência na próxima geração.

Referências:

1Deeming, D.C. & Reynolds, S.J. 2015. Nests, eggs and incubation. New ideas about avian reproduction. Oxford University Press. Oxford, UK.

2Lamichhaney, S. et al. 2016. Structural genomic changes underlie alternative reproductive strategies in the ruff (Philomachus pugnax). Nature Genetics 48: 84–88.

 3Eens, M. & Pinxten, R. 2000. Sex-role reversalin vertebrates: behavioural and endocrinological accounts. Behavioural Processes 51: 135-147.

4Wolff, J.O. & Macdonald, D.W. 2004. Promiscuous females protect their offspring. Trends in Ecology & Evolution 19: 127–34.

5Whittington, C.M. et al. 2015. Seahorse brood pouch transcriptome reveals common genes associated with vertebrate pregnancy. Molecular Biology and Evolution 32: msv177.

Imagem:

* “AlytesObstetricansMaleWithEggs” by Christian Fischer. Licensed under CC BY-SA 3.0 via Commons – https://commons.wikimedia.org/wiki/File:AlytesObstetricansMaleWithEggs.jpg#/media/File:AlytesObstetricansMaleWithEggs.jpg

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