Contar histórias a uma criança antes de dormir é uma das mais simples actividades parentais que existem. Não requer grandes meios, basta um livro ou alguma imaginação, e em troca de um pouco do nosso tempo somos gratificados com agradáveis momentos lúdicos com os nossos filhos. Mas poderão estas histórias trazer outros benefícios para lá da simples diversão e do ajudar a fazer chegar o sono?

A Academia Americana de Pediatria declarou em 2014 que todos os cuidados primários de pediatria devem incluir a promoção da leitura desde o nascimento. Esta declaração baseia-se numa vasta literatura sobre a correlação entre a presença dos livros e da leitura em voz alta durante o crescimento de uma criança e as suas posteriores capacidades linguísticas e sucesso escolar1. Mas, apesar de se saber que ler histórias às crianças desde a mais tenra idade está associado a diversas consequências positivas, sabe-se ainda muito pouco sobre os mecanismos por trás deste fenómeno.

Um estudo recente veio trazer alguma luz sobre as complexas interacções que ocorrem no cérebro de uma criança quando lhe mostramos um livro ilustrado. Investigadores do Hospital Pediátrico de Cincinnati e da Universidade de Medicina de Nova Iorque estudaram a actividade cerebral de crianças entre os 3 e os 5 anos enquanto lhes eram lidas histórias. Ao compararem crianças a quem os pais liam histórias regularmente com outras que não tinham esse privilégio, verificaram que as primeiras mostravam uma muito maior activação de uma região do hemisfério esquerdo do cérebro conhecida como córtex de associação parieto-temporo-occipital. Trata-se de uma região que integra informação sensorial ligada a estímulos auditivos e visuais, e que se sabe ser muito activa em crianças mais velhas quando lêem para si próprias. O que é mais impressionante é que as crianças expostas a livros em casa mostraram actividade em áreas do cérebro que processam associações visuais, embora as histórias que lhes eram lidas durante a experiência não tivessem quaisquer imagens. Isto significa que enquanto ouviam a história estas crianças estavam a visualizar mentalmente aquilo que ouviam2.

Os investigadores pensam que estas associações no cérebro vão mais tarde ajudar as crianças a ler melhor porque já desenvolveram a parte do cérebro que as ajudará a ver o que se passa na história. Por outro lado, é possível que os livros estimulem a criatividade de uma forma que os filmes e desenhos animados não conseguem, uma vez uma criança que vê um vídeo recebe automaticamente as imagens que compõem a história, o que retira ao cérebro a tarefa de as imaginar2.

Um outro estudo, levado a cabo por investigadores da Universidade do Indiana, verificou que os livros têm uma maior diversidade de palavras do que aquelas que os pais usam habitualmente quando falam com as crianças. Uma vez que as crianças necessitam de ouvir as palavras faladas para desenvolverem a sua linguagem, isto sugere que aquelas a quem são lidas histórias são expostas a um vocabulário mais vasto do que as que não ouvem histórias3.

Portanto, ler livros ilustrados às crianças significa que estas ouvem mais palavras, ao mesmo tempo que os seus cérebros treinam a criação das imagens associadas às palavras e frases que compõem até as histórias mais simples. A ciência mostra-nos que ler a uma criança é muito mais do que uma actividade divertida. Tem um papel extremamente importante na criação das ligação neuronais que vão ajudar posteriormente a criança a fazer a transição da fala para a leitura. Claro que, como todos os pais que lêem histórias sabem, tudo isto se passa num contexto de contacto próximo entre pais e filhos, que transmite aquela mistura essencial de conforto e segurança que as crianças necessitam de sentir, e que as faz voltar a pedir a mesma história vezes e vezes sem conta.

Referências:

1 Council on Early Childhood. 2014. Literacy promotion: an essential component of primary care pediatric practice. Pediatrics 134: 404-409.

2 Hutton, J.S. et al. 2015. Home reading environment and brain activation in preschool children listening to stories. Pediatrics 136: 466-478.

3 Montag, J.L., Jones, M.N. & Smith, L.B. 2015. The words children hear. Picture books and the statistics for language learning. Psychological Science 26: 1489-1496.

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