Quando nos perguntam o que mudou na nossa vida quando nos tornámos mães ou pais por vezes fica difícil dar uma resposta imediata e sucinta. Há as típicas “mudou tudo”, “o dia-a-dia ficou mais atarefado”, “a vida é mais alegre”. Mas eis que agora podemos dar uma resposta que é ao mesmo tempo mais original, científica, ampla e profunda: “O meu cérebro mudou!”. Vamos então ver como a ciência nos tem mostrado isto mesmo.

Hoje em dia já é ponto assente que a relação pais-filhos representa a primeira e mais importante interacção para o bebé. Sabe-se que é ela que estrutura os mecanismos neuronais responsáveis pelo seu desenvolvimento. Este é certamente um tema bastante complexo mas, de forma simples, podemos dizer que a eficácia desta relação depende a nível biológico, entre outras coisas, dos sinais enviados pelo bebé, como o choro e as expressões faciais, e da consequente activação dos comportamentos de cuidados parentais apropriados por parte dos pais.

Uma nova linha de investigação tem surgido, interessada em avaliar as áreas neuronais e as hormonas implicadas nos cuidados parentais em humanos, nomeadamente nestas mesmas respostas comportamentais aos estímulos fornecidos pelos bebés.1 Estes estudos têm sido suportados por novas tecnologias de análise, como por exemplo a imagiologia por ressonância magnética funcional (fMRI), entre outras. Esta é uma técnica não invasiva que permite obter dados estruturais e funcionais, por forma a detectar que partes do circuito nervoso são activadas pelos estímulos em estudo.

Comecemos pelas mães. O que podemos verificar nestes estudos é que o cérebro das mães apresenta uma actividade aumentada em determinadas regiões, como as associadas com a empatia, a ansiedade e a interacção social. Em particular a amígdala, envolvida nas reacções e aprendizagem emocionais, apresenta uma actividade tanto mais aumentada quanto a sensibilidade da mãe para responder às necessidades do bebé. É também muito interessante que uma resposta maior nesta área do cérebro está associada a menor ansiedade maternal, menos sintomas de depressão e uma experiência da maternidade mais positiva. Inversamente, mães que apresentam níveis elevados de ansiedade demonstraram menor resposta da amígdala ao observar o seu bebé e descreveram atitudes e experiências maternais mais negativas.2

Em termos hormonais, pode dizer-se que muito do que se passa na zona da amígdala cerebral da recém-mãe está relacionado com as hormonas circulantes, uma vez que essa região apresenta uma alta concentração de receptores para hormonas como a ocitocina, desde a gravidez.3 Os níveis de ocitocina aumentam muito durante a gravidez e no pós-parto, sendo esse aumento proporcional ao grau de envolvência da mãe nos cuidados com o bebé. É de notar que os níveis de ocitocina são de extrema relevância no processo de ligação e vinculação entre mãe e filho nos mamíferos em geral.

A quem queira aprofundar este tema, sugerimos um artigo de revisão publicado em 2014, por Jennifer Barrett e Alison Fleming do Departamento de Psicologia da Universidade de Toronto, onde podemos encontrar em mais detalhe todas as estruturas que se pensam importantes no comportamento maternal em humanos, tanto a sua localização estrutural em esquema, como a sua descrição em termos de funções reportadas.4

E passemos agora ao que passa nos pais. Nos homens pensa-se que, embora os níveis de ocitocina se encontrem comparáveis aos encontrados nas mães5, a hormona não está relacionada com os comportamentos paternais da mesma maneira que o está com os maternais. Ou seja, as activações cerebrais também acontecem, sim, mas por vias neuronais diferentes. É o que nos diz um estudo recente, em que os autores sugerem que o cérebro do pai mostra desenvolvimento das redes socio-cognitivas com a convivência e cuidados ao bebé, enquanto que o comportamento maternal apresenta aquele padrão de mudanças hormonais aliadas às cerebrais implicadas no processamento de emoções mesmo antes do nascimento do bebé. 6

Isto quer dizer também que embora os pais não possuam as potentes fontes hormonais para a expressão de cuidados ao bebé que são a gravidez, o parto e a amamentação, eles têm uma interessante flexibilidade cerebral para atingir tais expressões de cuidados (visíveis na referida análise de estrutura e função do cérebro) através da experiência e do tempo que passam com os filhos. Por outras palavras, o simples acto de tomar conta do seu bebé forma e reforça vias neuronais no cérebro paterno.

Todos estes conhecimentos aqui descritos de forma bastante sucinta, além de nos ajudarem a perceber o que se passa do ponto de vista biológico nos nossos sistemas neuro-endócrinos quando temos filhos, podem também revelar-se de extrema importância no entendimento, por exemplo, de problemas como a ansiedade ou depressão pós-parto, que muitas vezes afectam a qualidade das interacções pais-bebé, com as implicações na saúde a longo-prazo que daí podem decorrer.

Referências:

1 –Parental brain: cerebral areas activated by infant cries and faces. A comparison between different populations of parents and not. Piallini G, De Palo F, Simonelli A. Front Psychol. 2015 Oct 21;6:1625.

2- Maternal affect and quality of parenting experiences are related to amygdale response to infant faces. Barrett J, Wonch KE, Gonzalez A, Ali N, Steiner M, Hall GB, Fleming AS. Soc Neurosci. 2012;7(3):252-68.

3 – The neural correlates of maternal and romantic love. Bartels A, Zeki S. Neuroimage. 2004 Mar;21(3):1155-66.

4- Annual Research Review: All mothers are not created equal: neural and psychobiological perspectives on mothering and the importance of individual differences. Barrett J, Fleming AS. J Child Psychol Psychiatry. 2011 Apr;52(4):368-97.

5- Oxytocin and the development of parenting in humans. Gordon I, Zagoory-Sharon O, Leckman JF, Feldman R. Biol Psychiatry. 2010 Aug 15;68(4):377-82.

6 – Flexibility of the father’s brain. Saturn SR. Proc Natl Acad Sci U S A. 2014 Jul 8;111(27):9671-2.

Mais inspiração:

What happens to a woman’s brain when she becomes a mother, by Adrienne LaFrance, 2015.

 

 

 

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