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O mosquito-tigre, Aedes albopictus, é um dos potenciais vectores do vírus Zika.

Nas últimas semanas o vírus Zika explodiu nos meios de comunicação social, sobretudo desde que o Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças (CDC no acrónimo inglês) norte-americano emitiu um comunicado oficial recomendando que as mulheres grávidas deveriam evitar viajar para os países onde a infecção por este vírus se tem vindo a espalhar. Com o aumento exponencial da atenção mediática aumentou também a confusão e as informações por vezes contraditórias sobre este problema de saúde, pelo que vale a pena aqui resumir os dados científicos existentes sobre o vírus Zika e sobre o actual surto da doença por ele provocada.

O vírus Zika é um Flavivirus, semelhante aos vírus da dengue, do Nilo Ocidental e da febre amarela, e como estes é transmitido através da picada de mosquitos do género Aedes, nomeadamente as espécies Aedes aegypti e Aedes albopictus. O Zika foi isolado pela primeira vez em 1947, a partir de macacos rhesus mantidos em cativeiro na floresta Zika, no Uganda, e começou a ser detectado em pacientes humanos a partir de 1952. Nos humanos a febre de Zika é uma doença com sintomas ligeiros, sobretudo febre, erupções cutâneas, conjuntivite, dores nos músculos e articulações, dores de cabeça e mal-estar generalizado, que desaparecem espontaneamente ao fim de 2 a 7 dias1.

Até 2013, a febre de Zika manteve-se restrita a uma estreita área geográfica ao longo das regiões equatoriais de África e da Ásia, mas nesse ano surgiu um surto na Polinésia Francesa e já em 2015 a doença espalhou-se para as Américas onde se tem vindo a propagar de forma alarmante. Um estudo recente veio indicar que esta aparente mudança no padrão de dispersão do Zika pode estar associada a uma mutação que alterou uma proteína não estrutural (NS1) do vírus facilitando a sua propagação nos seres humanos2. Embora a febre de Zika não seja uma doença grave, durante o surto na Polinésia Francesa observaram-se cerca de 70 casos de síndrome Guillain-Barré – um distúrbio dos nervos periféricos que paralisa os membros, o pescoço e os músculos respiratórios – e de outros problemas neurológicos que podem ser complicações associadas ao vírus Zika. Por outro lado, também durante o mesmo surto foi provado que o Zika pode ser transmitido através da placenta, passando da mãe para o feto. Embora ainda não tenha sido demonstrada uma relação directa entre o vírus Zika e problemas no desenvolvimento fetal, as autoridades brasileiras suspeitam que esta infecção possa ser responsável pelo aparente aumento de cerca de 2000% nos casos de microcefalia registados em recém-nascidos brasileiros desde o início do actual surto de Zika no país3.

Em resumo, a febre de Zika é uma doença em rápida expansão nas regiões tropicais onde ocorrem mosquitos do género Aedes e, embora não seja geralmente grave, pode ocasionalmente acarretar complicações neurológicas e eventualmente causar deficiências em crianças cujas mães contraiam a infecção durante a gravidez. Tratando-se de um problema relativamente recente, a comunidade científica tem por enquanto mais questões do que respostas sobre o Zika, pelo que parece sensato reagir ao problema com prudência, mas sem cair em pânicos desnecessários. Em Portugal, o mosquito Aedes aegypti só ocorre na Madeira, onde foi já responsável por um surto de febre de dengue em 20124, pelo que só nessa região autónoma existe um risco real de virem a ocorrer casos de Zika em Portugal. Quanto à outra espécie, o Aedes albopictus, embora já tenha sido detectado noutros países do sul da Europa, tal ainda não aconteceu em Portugal. Para os portugueses o principal risco será a possibilidade de contrair a doença durante viagens às regiões afectadas, sobretudo na América do Sul e Central e em Cabo Verde. A doença é na maioria dos casos pouco grave pelo que a maior preocupação deve recair sobre as grávidas devido à possível ligação do Zika à microcefalia. Foi nesse sentido que têm sido feitas recomendações para as mulheres grávidas evitarem viajar para as regiões afectadas pelo vírus e, em caso de necessidade de viajar para essas zonas, terem especial atenção aos cuidados habituais para evitar as picadas de mosquito: uso de repelente, cobrir o máximo possível da pele com roupas de cores claras e dormir sob redes mosquiteiras.

Em caso de dúvida ou necessidade de aconselhamento, nunca é de mais lembrar que a linha Saúde 24 (808 242424) está disponível para aconselhamento, bem como a Direcção-Geral da Saúde, sempre disponível para atender pedidos de informação ou esclarecimentos sobre vírus Zika, designadamente através do email: zika@dgs.pt.

 

Referências:

1WHO. 2016. Zika virus fact sheet. World Health Organization. Actualizado em Janeiro de 2016.

2Freire, C.C.M., Iamarino, A., Neto, D.F.L., Sall, A.A., Zanotto, P.M.A. 2015. Spread of the pandemic Zika virus lineage is associated with NS1 codon usage adaptation in humans. BioRxiv 032839. DOI: 10.1101/032839.

3Fauci, A.S & Morens, D.M. 2016. Zika virus in the Americas — yet another Arbovirus threat. New England Journal of Medicine. DOI: 10.1056/NEJMp1600297.

4Sousa, C.A., Clairouin, M., Seixas, G., Viveiros, B., Novo, M.T., Silva, A.C., Escoval, M.T. & Economopoulo, A. 2012. Ongoing outbreak of dengue type 1 in the autonomous region of Madeira, Portugal: a preliminary report. Eurosurveillance 17: pii=20333.

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