Ser pai pode ser extenuante e até desesperante. Entre as noites mal dormidas, as batalhas do dia-a-dia contra os maus feitios, e os frequentes exercícios de levantamento de pesos, nenhum pai achará estranho que as teorias tradicionais da biologia evolutiva sugiram a existência de um trade-off entre sobrevivência e reprodução com a reprodução a comportar custos para os indivíduos que se reflectirão numa menor sobrevivência futura e logo numa menor esperança de vida. Tal foi mesmo comprovado em estudos com moscas-da-fruta, em que as moscas virgens viveram mais tempo, e com aves canoras, os chapins-azuis, que viram a sua probabilidade de sobrevivência reduzida quando obrigados a criar ninhadas maiores1.

Contudo, um estudo recente, publicado em Janeiro de 2016, veio pôr em causa este conceito biológico bem estabelecido, sugerindo que ter mais filhos pode até ter o efeito inverso. Para compreender esse estudo é primeiro necessário explicar o que são telómeros. Os telómeros são sequências repetidas de nucleótidos – as letras básicas do código genético – localizadas nas extremidades dos cromossomas – as estruturas do núcleo das células onde está contida a informação genética, ou seja o ADN. Os telómeros funcionam como uma protecção para a informação genética durante a divisão das células. A cada divisão celular é perdida uma pequena parte da extremidade do cromossoma, sendo que graças aos telómeros não se perde a informação mais crítica dos genes, mas apenas um pouco do telómero. No fundo funcionam como cotoveleiras ou joelheiras que se vão desgastando para evitar desgastar os próprios cotovelos ou joelhos. Claro que os telómeros, como as joelheiras, são finitos. A cada divisão o telómero fica mais curto pelo que organismos mais velhos, que já sofreram mais divisões celulares, têm os telómeros progressivamente mais curtos eventualmente perdendo a sua protecção e começando acumular erros no código genético que estão associados ao processo natural de envelhecimento2.

O estudo referido analisou o comprimento dos telómeros de 75 mulheres de duas comunidades rurais da Guatemala. Essa análise foi efectuada duas vezes, com 13 anos de intervalo, tendo-se verificado que as mulheres que tiveram mais filhos durante esse período tinham os telómeros mais longos do que aquelas que tiveram menos filhos. Tal sugere que ter um maior número de filhos não acelerou mas antes retardou o processo de envelhecimento dessas mulheres. Este efeito pode estar associado ao aumento dramático da hormona estrogénio durante a gravidez, hormona essa que tem um poderoso efeito antioxidante que protege as células do encurtamento dos telómeros3.

Mas antes de se pensar que o segredo para a vida eterna é reproduzirmo-nos como coelhos, convém ter em atenção a ressalva que os autores desse estudo fizeram. O ambiente social em que as mulheres que participaram no estudo vivem pode ter uma forte influência na relação entre o seu esforço reprodutor e a velocidade do seu envelhecimento. Essas mulheres vivem em comunidades naturalmente férteis em que as mães de famílias numerosas recebem um maior apoio social dos seus familiares e amigos. Esse maior apoio leva a um incremento na quantidade de energia metabólica disponível para a manutenção dos tecidos corporais, o que resulta numa desaceleração do processo de envelhecimento.

Por isso, da próxima vez que se sentir incomportavelmente cansado depois de um fim-de-semana caseiro com os filhos, ou estiver a contar as rugas novas em frente ao espelho, contente-se em saber que na verdade, no âmago das suas células, o seu processo de envelhecimento pode ter sido um pouco retardado pela adição dos filhos à sua vida.

 

Referências:

1Futuyma, D.J. 2013. Evolution. 3rd Ed. Sinauer Associates. Sunderland, Massachusetts. USA.

2Aubert, G. & Lansdorp, P.M. 2008. Telomeres and aging. Physiologial Reviews 88: 557-579.

3Barha, C.K. et al. 2016. Number of children and telomere length in women: a prospective, longitudinal evaluation. PLoS ONE 11: e0146424.

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