Só quando entramos no mundo da parentalidade é que descobrimos que o tema da amamentação anima as mais acérrimas discussões. Entre o campo dos opositores e dos defensores, os argumentos esgrimidos são dos mais diversos e não podiam muitas vezes estar mais afastados daquilo que deveria ser o essencial: o que é que se sabe sobre os benefícios e prejuízos que a amamentação acarreta para crianças e mães. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que as crianças sejam alimentadas exclusivamente com leite materno até aos seis meses de idade e em complemento aos outros alimentos pelo menos até aos dois anos1. Um estudo recente publicado na conceituada revista médica britânica The Lancet veio enfatizar os enormes benefícios para a saúde pública mundial que poderiam advir de um aumento da prática do aleitamento materno.

Baseando-se numa muito vasta compilação de dados, num total de 28 revisões e meta-análises, este estudo veio indicar que a amamentação tem efeitos claramente positivos nas crianças, sendo uma protecção contra as infecções infantis e o desalinhamento dos dentes (mal oclusão), aumentando a inteligência e, possivelmente, reduzindo o risco de obesidade e diabetes. A amamentação não parece influenciar (nem positiva nem negativamente) problemas alérgicos como a asma, a hipertensão ou o colesterol elevado. O único efeito negativo mencionado foi o aumento do risco de cáries para períodos de amamentação além dos 12 meses, no entanto os autores do estudo original alertam para a necessidade de compreender melhor esse resultado, uma vez que é difícil controlar factores que podem confundir a análise, como dietas com muito açúcar ou má higiene dentária. As vantagens para as mães são também evidentes, incluindo a protecção contra o cancro da mama, um melhor espaçamento entre partos e, possivelmente também, protecção contra o cancro dos ovários e a diabetes tipo 2. Na verdade, um aumento da amamentação para níveis universais em todo o mundo poderia evitar 823000 mortes anuais de crianças com menos de cinco anos e 20000 mortes anuais causadas pelo cancro da mama2.

Para além das evidentes vantagens para a saúde pública, o mesmo estudo calculou também os benefícios económicos de um investimento na promoção da amamentação. Os custos de não amamentar crianças podem atingir uns incríveis 302 mil milhões de dólares (cerca de 270 mil milhões de euros), o que equivale a aproximadamente 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Na verdade, se 90% das crianças fossem amamentadas até aos seis meses, apenas a redução nos custos do tratamento de doenças infantis comuns para os sistemas públicos de saúde poderia poupar cerca de 2450 milhões de dólares (2190 milhões de euros) apenas nos Estados Unidos, 224 milhões (200 milhões de euros) apenas na China e 6 milhões (5,4 milhões de euros) apenas no Brasil2.

Contudo, as taxas de amamentação são bastante baixas, sobretudo nos países desenvolvidos onde, por exemplo, menos de 1% das crianças são amamentadas até aos 12 meses no Reino Unido, sendo esta proporção de apenas 2% na Irlanda e de apenas 3% na Dinamarca. Na verdade, como salientam os autores do estudo, a amamentação é um dos poucos comportamentos favoráveis para a saúde que são mais comuns nos países menos desenvolvidos, embora mesmo nesses países apenas uma em cada três crianças sejam amamentadas até aos seis meses de idade. Uma das principais razões para estas baixas taxas de amamentação é o pouco apoio dado pelos governos à protecção, promoção e apoio da amamentação. Na maioria dos casos a promoção da amamentação concentra-se no encorajamento das mulheres a amamentar, sem que sejam criadas as condições económicas e sociais para que tal aconteça, como sejam o apoio dos sistemas de saúde, licenças de maternidade adequadas e intervenções ao nível dos locais de trabalho3.

Exemplos de sucesso nesta área vêm do Bangladesh, que aumentou em 13% a taxa de amamentação exclusiva até aos seis meses através da extensão da licença de maternidade para os seis meses, alteração legislativa que estará também em discussão em Portugal durante este ano. No Brasil, o período médio de amamentação aumentou de 2,5 para 14 meses entre 1975 e 2007 graças a uma combinação de intervenções políticas, sanitárias, sociais e dos meios de comunicação social3.

Embora a amamentação não seja possível em todos os casos, e a opção de não amamentar deva ser respeitada, é importante aumentar a informação do público sobre este tema. Não se trata apenas de melhor informar as potenciais mães e pais, mas também a comunidade médica e, sobretudo, as autoridades nacionais e internacionais com poderes para facilitar e promover a amamentação. A amamentação ficou de fora dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio e continua a não ser tratada como a questão chave de saúde pública que estudos como o acima citado revelam ser.

Referências:

1WHO. 2003. Global strategy for infant and young child feeding. World Health Organization. Geneva, Switzerland.

2Victora, C.G. et al. 2016. Breastfeeding in the 21st century: epidemiology, mechanisms, and lifelong effect. The Lancet 387: 475-490.

3Rollins, N.C. et al. 2016. Why invest, and what it will take to improve breastfeeding practices? The Lancet 387: 491-504.

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