Depois de uma primeira parte mais dedicada às neurociências (ver artigo anterior aqui), à molécula, ao cérebro, ao comportamento e relação, a conferência continuou com uma tarde mais focada na saúde e educação nos primeiros tempos de vida. Ficam mais uma vez aqui algumas notas, uma pequena parte do tanto que foi falado e sentido a cada palestra.

O Prof. Joshua Sparrow, director do Brazelton Touchpoints Center, Boston Children’s Hospital e Professor de Psiquiatria na Harvard Medical School, trouxe-nos uma palestra entitulada “Health and Education through Touchpoints”.

Touchpoints são os períodos sensíveis de desenvolvimento do bebé e o modelo com o mesmo nome foi desenvolvido pelo pediatra Prof. Berry Brazelton. O Prof. J. Sparrow definiu-o neste encontro como: dynamic, developmental theory with implications for practice change in pediatric health, early education and care, early intervention and social services. Mais detalhes sobre este modelo aqui.

O Prof. Sparrow falou-nos então de biologia evolutiva, do imperativo biológico de protecção às crianças e de como os pais devem ver as suas capacidades parentais reafirmadas pelos profissionais de saúde e pela sociedade em geral. Disse ainda que julga que interferimos de mais com a fonte natural de capacidades parentais (através da tv, etc) e é importante ter também em atenção o conhecimento, a cultura local em que cada criança se enquadra. Afinal o bebé crescerá numa comunidade, com a sua cultura.

Falou-nos ainda da importância de re-humanizar os cuidados de saúde, transformar os cuidados às crianças em cuidados às famílias e mudar os serviços sociais de uma perspectiva de child rescuing para family strenghening.

Terminou com a mensagem de que juntos podemos sempre fazer melhor!

Em seguida a Prof. Maria do Céu Machado, Professora de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e directora do Departamento de Pediatria do Hospital de Santa Maria, falou de “Promoção da Saúde nos Primeiros Touchpoints da Vida”.

Falou-nos do Plano Nacional de Saúde, da importância de pensar a saúde em todos os domínios, não só políticas de saúde directamente no Ministério da Saúde, dos objectivos para o desenvolvimento sustentável, sobre a importância das redes de pais e de estudos feitos em Portugal sobre as expectativas de parentalidade.

Alertou para as dificuldades dos pais de hoje devido à falta de contacto e experiência com bebés ao longo da vida, sendo que muitas vezes hoje em dia a primeira vez que contactam com um bebé é quando o seu filho nasce. Apontou como características comuns nos pais do século XXI o excesso de literacia mas falta de capacidades práticas no que toca aos cuidados ao recém-nascido, muita ansiedade e sentimentos de culpa. E deixou uma citação interessante:

“The true scarce commodity of the near future will be human attention.” — Satya Nadella, the chief executive officer of Microsoft

Para finalizar esta parte tivemos a Dra. Ana Teresa Brito, Membro do Conselho de Administração da Fundação Brazelton/Gomes-Pedro para as Ciências do Bebé e da Família e Associate Fellow at CEDAR/University of Warwick, que nos trouxe a palestra “O Desafio da Educação nos Primeiros Tempos de Vida”.

E enquadrou os temas apresentados nestes desafios:

#Colocar o actual conhecimento científico sobre a criança no centro da nossa compreensão sobre o seu desenvolvimento e aprendizagem;

#Conhecer a realidade de crianças muito pequenas e suas famílias em Portugal;

#Traduzir os conhecimentos em acção concreta.

Aqui deixamos apenas estas notas em jeito de tópicos, de mini-resumo, mas gostaríamos de deixar a ressalva que cada um destes oradores trouxe mesmo muitos momentos inspiradores para quem lá esteve, e também exemplos de livros e estudos e estatísticas muito interessantes.

Terminamos com o pensamento que a Dra. Ana Teresa Brito nos deixou, de que é fundamental tratar o recém-nascido como uma pessoa e que é urgente aprender a ouvir, e com um poema que ela tão bem nos lembrou.

ESCUTO

Escuto mas não sei

Se o que oiço é silêncio
Ou deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco.

Sophia de Mello Breyner Andresen
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