Enquanto estão no útero materno, os bebés estão virtualmente livres de micróbios, sendo os seus corpos, e sobretudo os seus tubos digestivos, rapidamente colonizados por uma miríade de microrganismos após o nascimento. Estes primeiros micróbios a residir nos nossos corpos são importantíssimos, pois vão formar um dos principais estímulos para o desenvolvimento pós-natal do sistema imunitário, em particular para a maturação do tecido linfóide associado ao intestino, assim como para a regulação da fisiologia intestinal1.

Um estudo recente, publicado a semana passada na revista Science, levou esta ideia um passo mais longe e explorou a hipótese da flora microbiana do intestino da mãe durante a gravidez poder afectar o sistema imunitário dos filho. Numa experiência levada a cabo em ratinhos, foi comparado o sistema imunitário de crias cujas mães foram infectadas com uma estirpe da bactéria Escherichia coli durante a gestação, com o de outras cuja mãe não foi infectada. Os investigadores observaram que as crias de mães infectadas apresentavam mais células linfóides e mononucleares do sistema imunitário logo após o nascimento do que as restantes crias. Estas diferenças no sistema imunitário reflectiram-se numa maior capacidade desta crias para evitar processos inflamatórios e a penetração de micróbios intestinais2.

A infecção das mães influenciou também a expressão de numerosos genes nas crias, nomeadamente genes ligados à divisão e diferenciação celular, ao metabolismo e à função imunitária, incluindo genes que contém a informação genética ligada à produção de moléculas antibacterianas nos tecidos epiteliais, que são os tecidos que revestem a superfície externa e as diversas cavidades internas do organismo.

Estes efeitos, tanto ao nível genético como imunitário, parecem resultar da transmissão e retenção de moléculas microbianas nos anticorpos maternos. Quando os anticorpos da mãe passam para o filho, quer através da placenta quer, depois do nascimento, através do leite, estes permitem que o sistema imunitário do filho entre em contacto com as moléculas microbianas, desencadeando uma resposta semelhante à causada pelos primeiros micróbios que colonizam naturalmente o intestino após o nascimento2.

Os resultados deste estudo vêm acrescentar mais um surpreendente capítulo à crescente compreensão por parte da comunidade científica da importância da flora intestinal para a função imunitária desde a mais tenra infância.

Referências:

1Brandtzaeg P. 1998. Development and basic mechanisms of human gut immunity. Nutrition Reviews 56: S5-S18.

2de Agüero, M.C. et al. 2016. The maternal microbiota drives early postnatal innate immune development. Science 351: 1296-1302.

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