Uma das consequências da crescente mobilidade das sociedades modernas é o aumento da multiculturalidade e, consequentemente, do número de casais bilingues, ou seja, em que cada membro do casal tem uma língua materna diferente. Quando estes casais têm filhos é comum surgirem dúvidas sobre a melhor forma de comunicar com eles. Deverá cada pai falar com o filho na sua língua materna, ou deverão tentar falar ambos na mesma língua para facilitar a aprendizagem da linguagem na criança?

Para lá das evidentes vantagens sociais e laborais, parecem existir diversos outros benefícios em dominar várias línguas. As pessoas bilingues parecem ser mais criativas e ter maior capacidade para resolver problemas, os seus cérebros parecem sofrer menos os efeitos do envelhecimento, e o desenvolvimento de problemas de demência tende a ocorrer mais tarde. No caso particular das crianças, ser bilingue parece aumentar a capacidade de prestar atenção a informação relevante e ignorar as distrações1,2.

Contudo, para as crianças há diferenças entre aprender duas línguas em simultâneo ou aprender as línguas em sucessão. Embora as crianças que aprendem simultaneamente duas línguas desde o berço tendam a começar a falar um pouco mais tarde, adquirem facilmente ambas as línguas, enquanto aquelas que aprendem a segunda língua mais tarde, por exemplo por emigrarem para outro país, podem ter mais dificuldade em separar as duas línguas e frequentemente passam por uma fase não-verbal chegando a deixar de falar durante semanas2.

Um estudo recente veio mostrar que as crianças bilingues mostram diferenças na actividade cerebral mesmo antes de completarem um ano de idade. Recorrendo à técnica da magnetoencefalografia (MEG), o estudo evidenciou que, mesmo antes de começarem a falar, as crianças criadas em lares bilingues mostravam uma maior actividade cerebral em zonas associada a funções executivas, nomeadamente o córtex pré-frontal e o córtex orbito-frontal, provavelmente porque o seu cérebro já estava habituado a alternar entre duas línguas3.

Este estudo veio clarificar também que as crianças criadas em lares bilingues não sofrem qualquer atraso na aprendizagem da linguagem: os bebés bilingues mostravam igual sensibilidade neuronal a sons nas duas línguas em estudo, o inglês e o espanhol, e a sua sensibilidade aos sons em inglês era idêntica à exibida pelos bebés monolingues cujos pais eram ambos de expressão inglesa3.

Segundo os autores deste estudo, aos 11 meses os bebés monolingues mostravam uma percepção do som mais focada na sua língua, tendo perdido a capacidade de discriminar sons noutras línguas que aos 6 meses de idade ainda eram capazes de distinguir. Os bebés bilingues mantinham-se mais “abertos” a sons noutras línguas, o que parece ser claramente uma capacidade vantajosa e altamente adaptativa. Estes resultados vêm reforçar a ideia que as crianças pequenas não só são capazes de aprender várias línguas em simultâneo, como a fase inicial da vida é mesmo o período ideal para iniciar essa aprendizagem.

Não parecem sobrar grandes dúvidas que a aprendizagem de várias línguas é vantajosa para os indivíduos a todos os níveis e que essa aprendizagem pode e deve iniciar-se tão cedo quanto possível. Assim, os casais bilingues têm a oportunidade de oferecer este benefício aos seus filhos, sem qualquer custo ou esforço, simplesmente falando com eles na sua língua materna.

Referências:

1 Canadian Council on Learning. 2008. Parlez-vous français? The advantages of bilingualism in Canada. Canadian Council on Learning.

2 Paradis, J., Genesee, F., & Crago, M. 2011. Dual Language Development and Disorders: A handbook on bilingualism & second language learning. Paul H. Brookes Publishing. Baltimore, USA.

3 Ramírez, N.F., Ramírez, R.R., Clarke, M., Taulu, S. & Kuhl, P.K. 2016. Speech discrimination in 11-month-old bilingual and monolingual infants: a magnetoencephalography study. Developmental Science DOI: 10.1111/desc.12427.

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