Nas últimas décadas a ocorrência de miopia entre os jovens tem crescido de forma dramática. Este aumento é particularmente alarmante no Extremo Oriente, onde países como a China, o Taiwan, a Coreia do Sul ou Singapura registaram uma explosão na ocorrência de miopia, que afectava 20-30% da população destes países na década de 1950 e hoje tem níveis de incidência que ultrapassam os 80%. Num exemplo paradigmático, a taxa de miopia entre os jovens do sexo masculino de 19 anos na cidade de Seul atinge hoje uns alarmantes 96.5%. Também nos Estados Unidos e na Europa se observaram aumentos significativos desta doença, tendo o número de casos aproximadamente duplicado nos últimos 50 anos, ao ponto de alguns peritos declararem que estamos perante uma epidemia de miopia1.

As potenciais causas da miopia são estudadas há já bastante tempo. Sabe-se que existe uma componente genética para esta doença, uma vez que é mais provável dois gémeos verdadeiros partilharem a doença do que dois gémeos falso. Contudo, também já se sabe há várias décadas que o desenvolvimento da miopia está associado ao estilo de vida. Mais especificamente, em 1969, um estudo demonstrou que a miopia estava quase ausente entre os esquimós Inuit adultos que tinham crescido em comunidades isoladas no Alasca, mas afectava mais de metade dos seus filhos e netos que tinham crescido em ambiente urbano2.

Nessa época os dedos começaram a ser apontados aos livros e à leitura. Na verdade, esta era uma ideia já com séculos uma vez que o célebre astrónomo e matemático alemão Johannes Kepler defendera no século XVII que a sua miopia se devera ao muito tempo que passara imerso nos livros dos seus estudos. Era uma ideia que fazia sentido, até porque o recente aumento explosivo da miopia tem paralelo no aumento do tempo dedicado à leitura, ao estudo e, mais recentemente, aos computadores e smartphones, sendo que esse aumento parece ser mais marcado nos países do Extremo Oriente onde é dada uma importância muito grande ao desempenho escolar1.

Contudo, esta associação entre a miopia e a leitura não foi confirmada por uma análise científica mais aprofundada. Factores como o número de livros lidos por semana ou o número de horas passadas a ler ou em frente a um computador não parecem estar associados ao risco de desenvolver miopia1. Foi apenas na década passada que se descobriu um outro factor de risco muito mais importante para o desenvolvimento da miopia. Estudos nos Estados Unidos e na Austrália, que seguiram milhares de crianças de escolas primárias, verificaram que o risco de miopia era muito mais elevado entre as crianças que passavam menos tempo ao ar livre. Independentemente das actividades a que se dedicavam fora de portas: desporto, brincadeira, picnics, ou mesmo leitura, as crianças que passavam mais tempo ao ar livre tinham uma menor prevalência de miopia3,4.

Diversos estudos, tanto em pessoas como em animais, têm vindo a demonstrar nos últimos anos que a luz natural parece proteger as crianças da miopia. Quando são controladas todas as outras variáveis, a exposição a luz natural parece mesmo reduzir o risco de desenvolver miopia. Embora ainda não se saiba em definitivo o mecanismo através do qual a luz natural afecta a miopia, a hipótese mais apoiada de momento sugere que a luz estimula a libertação de dopamina – um neurotransmissor com diversas funções no nosso sistema nervoso – na retina, sendo esta dopamina que indica ao olho para mudar do modo de visão nocturno para o modo de visão diurno. Em condições de pouca luz (ou seja dentro de portas) este ciclo dia-noite é interrompido afectando o regular funcionamento do olho1.

Aparentemente, a exposição a níveis de luz da ordem dos 10.000 lux durante três horas por dia protege do desenvolvimento da miopia. Esse nível de luz pode ser atingido na rua mesmo em dias encobertos, mas numa sala com iluminação artificial o nível de luz raramente ultrapassa os 500 lux. Em escolas onde foi experimentalmente aumentado em 40 a 80 minutos o tempo que as crianças passam fora de portas observaram-se reduções significativas no aparecimento de novos casos de miopia1.

As evidências científicas apontam cada vez mais claramente para a falta de tempo ao ar livre como causa do aumento da miopia nas sociedades modernas. Curiosamente, em 1904, o famoso oftalmologista britânico Henry Juler já tinha apontado uma mudança de ares ou, se possível, uma viagem no mar como remédio para a miopia. Parece que a ciência demorou um século a confirmar a sua intuição. Se conseguirmos, enquanto pais e enquanto sociedade, aumentar o tempo que as crianças brincam na rua, talvez dentro de uma geração a miopia possa deixar de ser uma epidemia e se torne cada vez mais um problema do passado.

Referências:

 1Dolgin, E. 2016. The myopia boom. Nature 519: 276-278.

2Young, F.A., et al. 1969. The transmission of refractive errors within eskimo families. American Journal of Optometry and Archives of the American Academy of Optometry 46: 676–685.

3Jones, L.A. et al. 2007. Parental history of myopia, sports and outdoors activities, and future myopia. Investigative Ophthalmology and Visual Science 48: 3524-3532.

4Rose, K.A. et al. 2008. Outdoor activity reduces the prevalence of myopia in children. Ophtalmology 115: 1279-1285

Advertisements