Todos sabemos que certos comportamentos acarretam riscos para a nossa saúde. Por exemplo, fumar tabaco aumenta o risco de ter cancro do pulmão e consumir sal em excesso pode causar hipertensão. São comportamentos que podemos, com maior ou menor dificuldade, controlar enquanto indivíduos. Mas então, e se aquilo que nos coloca em risco de desenvolver problemas crónicos de saúde resultasse de situações que vivemos há décadas atrás e que não dependeram directamente das nossas acções? É isso mesmo que têm demonstrado vários estudos que puseram a claro que a exposição a experiências adversas durante a infância aumenta grandemente o risco de ter um alargado leque de problemas de saúde na vida adulta1.

Experiências adversas na infância (do acrónimo inglês ACE – Adverse Childhood Experiences) são eventos traumáticos ou situações de abuso prolongado, que acontecem antes da idade de 18 anos; vão desde os abusos físicos ou psicológicos mais graves até à negligência emocional, à exposição a ambientes violentos ou mesmo a situações familiares difíceis como um divórcio ou a morte de um familiar próximo. Quanto maior a exposição de um indivíduo a este tipo de experiências durante a infância, maior o risco de desenvolver desordens mentais e funcionais, assim como de contrair doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, hepatite, doença pulmonar obstrutiva crónica, problemas imunológicos, dor crónica, e cancros da faringe e do pulmão1. Em parte, estes problemas de saúde podem estar associados a uma maior tendência para comportamentos prejudiciais para a saúde, como o consumo de drogas, álcool e tabaco, ou mesmo tendências suicidas2. Mas essa é apenas uma parte da história. A verdade é que a exposição das crianças a experiências adversas parece alterar o seu organismo de formas diversas e duradouras que acarretam consequências para o resto da vida.

A exposição a experiências adversas durante a infância está associada a alterações a nível neuronal, endócrino e imunológico, muitas delas ligadas aos sistemas biológicos responsáveis pelo equilíbrio metabólico do corpo humano. As crianças expostas a tais experiências apresentam um córtex pré-frontal mais reduzido, o que está associado a uma menor capacidade de organizar informação, a défices de atenção e a uma maior impulsividade. Estas crianças apresentam também níveis permanentemente elevados de cortisol, uma hormona directamente associada à resposta do corpo a situações de stress. Finalmente, estas crianças exibem muitas vezes alterações na sua função imunitária, incluindo processos inflamatórios induzidos por stress e uma redução das respostas imunológicas adquiridas3.

Estas alterações fisiológicas persistem na vida adulta, estando associadas a défices nas funções executivas do cérebro, perda de memória, níveis de stress permanentemente elevados e respostas inflamatórias cronicamente elevadas. Estes diferentes factores de stress fisiológico afectam os indivíduos de forma crónica ao longo da sua vida, podendo levar a um progressivo desgaste do organismo que se manifesta num envelhecimento mais rápido e em problemas de saúde crónicos3.

As evidências científicas são claras. As consequências das experiências traumáticas durante a infância são múltiplas e duradouras. Aceitar este facto é o primeiro passo para tomar medidas e estabelecer estratégias a longo prazo que permitam debelar este problema que têm custos imensos para a sociedade, quer em termos do bem-estar individual, quer ao nível do impacto económico dos problemas de saúde crónicos1. Nomeadamente, trabalhar junto das famílias para minimizar a exposição das crianças a situações adversas e ajudar os adultos a ultrapassar os traumas sofridos pode ajudar a combater este problema. Como diz  a Dra. Nadine Burke Harris na sua Ted Talk4 sobre este tema: “Isto é tratável. Isto pode ser vencido. Aquilo que é mais necessário hoje é ter a coragem de olhar para este problema sem rodeios e dizer, isto é real e isto afecta-nos a todos.”

Referências

1Egle, U.T. et al. 2016. Health-related long-term effects of adverse childhood experiences – an update. Bundesgesundheitsblatt Gesundheitsforschung Gesundheitsschutz DOI:10.1007/s00103-016-2421-9.

2Dube, S.R. et al. 2003. The impact of adverse childhood experiences on health problems: evidence from four birth cohorts dating back to 1900. Preventive Medicine 37:268-277.

3Danese, A. & McEwen, B.S. 2012. Adverse childhood experiences, allostasis, allostatic load, and age-related disease. Physiology and Behavior 106:29-39.

4Burke, N.H. 2014. How childhood trauma affects health across a lifetime. TED Ideas worth spreading.

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