Um relatório recente da UNICEF (Outubro de 2016) veio alertar para um problema crescente a nível mundial que afecta com particular gravidade a saúde das crianças, até mesmo antes de nascerem. Este problema causa abortos, partos prematuros e baixo peso à nascença, contribui para uma em cada dez mortes a nível mundial de crianças com menos de cinco anos e pode afectar o desenvolvimento do cérebro das crianças. Este problema é a poluição atmosférica1.

A poluição atmosférica afecta-nos a todos, uma vez que todos respiramos o mesmo ar. Contudo, as crianças respiram duas vezes mais depressa que os adultos e inspiram mais ar proporcionalmente ao seu peso. As suas vias respiratórias são também mais permeáveis, os seus sistemas imunitários mais inexperientes e os seus cérebros estão ainda em desenvolvimento. Tudo isto torna-as particularmente sensíveis a esta forma de poluição2.

Os poluentes aéreos ultrafinos, presentes em fumos e vapores tóxicos, penetram e irritam mais facilmente os pulmões das crianças, causando doenças graves como pneumonias, bronquites, asma e outros problemas respiratórios que juntos são uma das principais causas de morte infantil a nível mundial. Estas partículas minúsculas entram na corrente sanguínea e podem mesmo atravessar a barreira sangue-cérebro, que protege o nosso cérebro da maioria dos agentes agressores que chegam ao sangue, uma vez que esta é mais permeável nas crianças, causando inflamações, danificando tecido cerebral e levando a défices cognitivos permanentes. Além disso, conseguem também atravessar a barreira da placenta que protege o feto de potenciais ameaças presentes no sangue da mãe, causando danos nos fetos cujas mães são expostas a poluentes atmosféricos1.

Quando este problema é analisado à escala global, os números são verdadeiramente assustadores. A UNICEF estima que 300 milhões de crianças estejam expostas a níveis extremamente tóxicos de poluição atmosférica, que correspondem a seis ou mais vezes os níveis de poluição máximos definidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS), sendo que cerca de 2 mil milhões vivem em áreas onde esse limite máximo é excedido regularmente. Estes níveis de poluição serão responsáveis em cada ano por cerca de 600000 mortes de crianças com menos de cinco anos, a maioria das quais em África e no sudoeste asiático, assim como o desenvolvimento de problemas de saúde crónicos e atrasos cognitivos permanentes em milhões de outras crianças1.

Este problema é evidentemente mais grave nos países sub-desenvolvidos, onde as leis que regulam a poluição atmosférica não existem ou não são aplicadas. Afecta não só as crianças que vivem em zonas urbanas e/ou próximo de zonas industriais, mas também crianças de zonas rurais que vivem em casas mal ventiladas onde a comida é cozinhada em fogões a lenha ou lareiras1. Embora várias cidades portuguesas ultrapassem frequentemente os limites de poluição atmosférica recomendados pela OMS, não são certamente das mais problemáticas a nível mundial3. Assim, embora a poluição das nossas cidades não deva ser esquecida, a principal nota de atenção deste estudo para a maioria das famílias portuguesas passará pela questão da ventilação das casas e da exaustão de fumos das cozinhas, esquentadores e lareiras, que podem apresentar um risco para os residentes, sendo este risco maior para crianças e grávidas.

Referências:

1UNICEF. 2016. Clear the air for children. The impact of air pollution on children. United Nations Children’s Fund, Division of Data, Research and Policy. Nova York, EUA.

2 ATSDR. 2002. Your child’s environmental health. How the body works: differences between adults and children. Agency for Toxic Substances and Disease Registry. Michigan, EUA.

3WHO. 2016. Ambient air pollution: a global assessment of exposure and burden of disease. World Health Organization. Genebra, Suiça.

 

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