O ano de 2016 foi pródigo em desenvolvimentos sociais e políticos que deixaram o mundo preocupado em relação ao futuro. Contudo, este foi também um ano de interessantes avanços científicos nas mais diversas áreas. No que toca ao tema da parentalidade, vamos aqui resumir de forma muito sucinta alguns dos muitos estudos científicos publicados durante o ano que agora termina, que trouxeram novos conhecimentos e perspectivas em vários campos.

O estudo do nosso cérebro representa uma das áreas mais fascinantes que tem visto grandes avanços recentes. Sabe-se hoje mais, por exemplo, sobre como o cérebro muda depois de nos tornarmos pais, com alterações ao nível das regiões do cérebro ligadas às reacções e aprendizagem emocionais que aumentam a nossa sensibilidade às necessidades do bebé (ver mais aqui). Neste último mês foi inclusivamente muito divulgado um artigo que descreve as mudanças a nível de estrutura cerebral que parecem ocorrer no cérebro das mães a partir da gravidez e com efeitos duradouros até pelo menos dois anos depois do fim da gravidez1.

Um outro estudo veio demonstrar que as crianças que crescem num ambiente bilingue mostram desde muito cedo um maior desenvolvimento de regiões do cérebro ligadas a funções executivas, o que mais tarde se reflecte numa maior facilidade em resolver problemas e aprender novas línguas (ver mais aqui). E o que se passará no cérebro das crianças quando não dormem o suficiente? Embora as consequências sejam semelhantes às que se observam nos adultos – alterações na actividade eléctrica do cérebro – estas afectam áreas diferentes do cérebro nas crianças, por este estar ainda em desenvolvimento, não se sabendo ainda o que isto possa causar ao nível do desenvolvimento do cérebro infantil2.

Foi também em 2016 que se deu a conhecer uma nova técnica para o estudo da actividade cerebral nos fetos dentro do útero materno, que permite observar essa actividade mesmo quando a criança se move, o que abre novas perspectivas para o nosso conhecimento do desenvolvimento cerebral durante a gestação e de como diferentes influências externas podem afectar o cérebro fetal3.

Outra área científica em franca expansão é a que estuda a relação entre a flora intestinal, a comunidade de bactérias que habita o nosso intestino, e a nossa saúde. No que respeita ao tema da parentalidade, um estudo veio mostrar que as bactérias do intestino materno são importantes para o desenvolvimento inicial do sistema imunitário do filho, pois as moléculas microbianas que viajam até ao feto ligadas aos anticorpos da mãe estimulam o sistema imunitário do filho, tornando-o mais capaz de reagir rapidamente a infecções logo após o nascimento (ver mais aqui). Um outro estudo veio mostrar que a associação entre stress materno durante a gravidez e problemas cognitivos e de ansiedade que se manifestam ao longo da vida das crianças pode ser causada por alterações na flora intestinal materna. O stress altera a flora intestinal materna e, como essas bactérias serão as primeiras a colonizar o intestino do filho, a sua flora intestinal vai também ser diferente daquela observada nos filhos de mães que não sofreram stress, com consequências para a sua saúde a longo prazo4.

Vários estudos vieram também alertar para problemas de saúde que afectam as crianças a nível mundial. Um estudo da UNICEF demonstrou que a maioria das crianças estão expostas a níveis perigosos de poluição atmosférica com consequências graves para a sua saúde (ver mais aqui), enquanto a crescente epidemia de miopia que afecta sobretudo as crianças dos países desenvolvidos foi associada à falta de tempo passado ao ar livre durante a infância (ver mais aqui). Um outro estudo internacional de grande escala analisou o tema da amamentação e estimou que a diminuição da amamentação na base da alimentação das crianças nos primeiros meses de vida, sobretudo nos países desenvolvido, resulta numa perda dos benefícios para a saúde infantil e materna na ordem das mais de 800.000 mortes evitáveis a nível mundial todos os anos (ver mais aqui).

Outro tema que se conhece cada vez melhor é o das graves consequências que as experiências adversas durante a infância têm para a saúde ao longo da vida (ver mais aqui ). Um exemplo de experiência adversa é a negligência emocional, com um estudo recente focado em crianças institucionalizadas a demonstrar que as crianças em instituições onde os funcionários lhes oferecem carinho e conexão emocional exibem um melhor desenvolvimento físico, cognitivo e social, tendo também maior facilidade na adaptação às famílias de acolhimento depois da adopção5.

Um outro assunto quente no que respeita à saúde pública mundial foi o surto do vírus Zika, sobretudo nas Américas, que se iniciou em 2015 mas adquiriu um carácter mais assustador este ano depois de se ter demonstrado que a infecção pelo vírus durante a gravidez pode causar malformações nos fetos (ver mais aqui). Na verdade, os dados mais recentes sugerem que os efeitos do vírus são ainda mais graves do que se pensava inicialmente, com uma alta proporção de crianças a nascerem com problemas ao nível do desenvolvimento do cérebro e sistema nervoso6.

Resumindo, levamos de 2016 mais evidências científicas, melhores ferramentas e mais consciência para podermos agir e contribuir para um mundo melhor.

Para finalizar, felizmente os novos avanços científicos trazem também notícias curiosas e inspiradoras sobre a biologia humana. Por exemplo, em 2016 também ficamos a saber que as pessoas que têm mais filhos parecem exibir um retardamento do envelhecimento ao nível genético (ver mais aqui), sugerindo que até ao nível mais básico da existência, o das moléculas que nos compõem, a parentalidade pode ser uma experiência enriquecedora!

Feliz 2017! E obrigado por nos acompanhar em 2016, este que também foi o primeiro ano do nosso projecto “Parentalidade com Ciência”!

Ana Ferreira e Pedro Lourenço

 

Referências:

1 Hoekzema, E., Barba-Müller, E., Pozzobon, C., Picado, M., Lucco, F., García-García, D., Soliva, J.C., Tobeña, A., Desco, M., Crone, E.A., Ballesteros, A., Carmona, S., Vilarroya, O. 2016. Pregnancy leads to long-lasting changes in human brain structure. Nat Neurosci. 2016 Dec 19. doi: 10.1038/nn.4458.

2 Kurth, S., Dean, D.C., Achermann, P., O’Muircheartaigh, J., Huber, R., Deoni, S.C.L. & LeBourgeois, M.K. 2016. Increased sleep depth in developing neural networks: new insights from sleep restriction in children. Frontiers in Human Neuroscience 10 DOI: 10.3389/fnhum.2016.00456.

3 Seshamani, S., Blazejewska, A.I., Mckown, S., Caucutt, J., Dighe, M., Gatenby, C. & Studholme, C. 2016. Detecting default mode networks in utero by integrated 4D fMRI reconstruction and analysis. Human Brain Mapping 37: 4158 DOI: 10.1002/hbm.23303.

4 Gur, T. 2016. Stress-induced changes in maternal gut could negatively impact offspring for life. Neuroscience 2016. Annual Meeting of the Society for Neuroscience.

5 McCall, R.B., Muhamedrahimov, R.J., Groark, C.J., Palmov, O.I., Nikiforova, N.V., Salaway, J.L. & Julian, M.M. 2016. The development of children placed into different types of Russian families following an institutional intervention. International Perspectives in Psychology: Research, Practice, Consultation 5: 255 DOI: 10.1037/ipp0000060.

 6 Vogel, G. 2016. Experts fear Zika’s effects may be even worse than thought. Science 352: 1375-1376.

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