Este artigo foi originalmente escrito para a Bloom | Birth & Baby e publicado na sua página a 02/03/2017, com o título Microquimerismo: Deixas em mim tanto de ti.

Microquimerismo define-se como a ocorrência num indivíduo de um pequeno número de células  provindas de outro indivíduo. Sabe-se actualmente que durante a gravidez células do feto conseguem atravessar a placenta e incorporar tecidos da mãe, em várias localizações possíveis no seu corpo. Da mesma forma, também células da mãe podem ser detectadas nos filhos. Em ambos os casos, estas células podem ser encontradas até décadas depois da gravidez. Isto significa que as mães carregam no seu corpo ao longo de muitos anos material genético único dos seus filhos, tornando-se então no que se chama de microquimera.

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Figura adaptada de Boddy et al., 2015. Microquimerismo materno-fetal. O microquimerismo é uma troca bidirecional de células maternas e do feto durante a gravidez. Considera-se que há a possibilidade de filhos mais novos receberem inclusivamente células dos filhos mais velhos, através deste processo.

Este fenómeno é comum em mamíferos placentários e com o apoio das técnicas de análise molecular actualmente mais minuciosas, este intrigante tema tornou-se possível de investigar mais a fundo. Recentemente têm sido propostas teorias sobre como o microquimerismo afecta a saúde da mãe, havendo um leque de estudos relacionando-o com efeitos positivos de recuperação de tecidos, até outros casos de efeitos negativos, como a influência em doenças auto-imunes.

Sabe-se que as células que passam do feto para a corrente sanguínea da mãe e posteriormente para os seus tecidos, são pluripotentes, ou seja, com capacidade de se tornarem basicamente em vários tipos de células especializadas e integrarem diferentes tipos de tecidos. Embora tipicamente o sistema imunológico da mãe seja capaz de remover depois da gravidez células fetais que não se alteraram, aquelas que já se encontram integradas nos diversos possíveis tecidos podem continuar aí alojadas. Nos estudos efectuados até hoje, foi possível detectar-se este fenómeno desde as 7 semanas de gravidez e até 27 anos após o parto.

Num outro passo de complexidade deste fenómeno, sabe-se também que quando existem várias gravidezes o corpo da mãe acumula células de cada um dos seus fetos, pensando-se assim que também é provável que haja transferência do filho mais velho para o seguinte, formando assim microquimeras ainda mais elaboradas.

Este fenómeno foi descrito já há várias décadas, quando material genético masculino foi detectado na corrente sanguínea de uma mulher. No entanto, na época as tecnologias existentes não permitiram uma análise tão detalhada como recentemente tem sido possível, e que tem elucidado, nomeadamente, que as células fetais podem detectar-se em vários tecidos e órgãos da mãe, entre eles: sangue, medula, pele, fígado, rins, coração e pulmões. Em estudos com ratinhos foi possível verificar também a transferência de células fetais para o cérebro da mãe. Parece que também serão capazes de se dirigirem para locais de lesão e mesmo influenciar a auto-imunidade e tolerâncias a transplantes. Pensa-se ainda que a presença destas células pode ter impacto na regulação de possibilidade de nova gravidez.

De forma geral, o desafio maior nas pesquisas futuras neste tema reside na elucidação do papel do microquimerismo na saúde materna, tanto positiva como negativamente. Consideram-se actualmente hipóteses de influência na imunidade, designadamente nos níveis de auto-imunidade, nas regulações fisiológicas várias, como produção de calor e leite no pós-parto, na regulação de novas gravidezes e mesmo em questões de saúde mental, que certamente serão mais bem conhecidas com o avanço das novas tecnologias moleculares cada vez mais precisas, mas também com a integração de estudos de diferentes áreas, nomeadamente evolutivos, que permitirão encontrar novas peças para este fascinante puzzle.

 

Se tiver interesse em ler mais sobre este tema e em mais detalhe, aconselhamos os seguintes artigos:

Boddy AM, Fortunato A, Wilson Sayres M, Aktipis A. Fetal microchimerism and maternal health: A review and evolutionary analysis of cooperation and conflict beyond the womb. Bioessays. 2015;37(10):1106-1118.

Rijnink EC, Penning ME, Wolterbeek R, Wilhelmus S, Zandbergen M, van Duinen SJ, Schutte J, Bruijn JA, Bajema IM. Tissue microchimerism is increased during pregnancy: a human autopsy study. Mol Hum Reprod 2015; 21 (11): 857-864.

Dawe GS, Tan XW, ao Z-C. Cell Migration from Baby to Mother. Cell Adhesion & Migration. 2007;1(1):19-27.

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